Livreiro Ivan Presença conta histórias do mercado editorial brasiliense

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“Foi o livro que me trouxe para Brasília. Cheguei aqui em 1º de janeiro de 1967 e estou até hoje” Ivan Presença, sobre a chegada à capital

A vida de Ivan Presença se movimenta como se movimentam as páginas do livro de um leitor voraz. A relação dele com as obras de escritores foi o que o trouxe a Brasília, por exemplo, aos 16 anos, quando deu início à profissão de livreiro. Foi dono das duas livrarias mais badaladas da cidade, onde recebeu nomes como Henfil, Renato Russo, Frei Betto, Zuenir Ventura, Leonardo Boff, Rubem Braga, Marcelo Rubens Paiva, os irmãos Paulo e Chico Caruso e até um Prêmio Nobel, o escritor português José Saramago.

Hoje, Ivan resiste no Quiosque Cultural, espaço que já foi maior, mas que ainda mantém a aura dos tempos de efervescência cultural, ao lado da Faculdade de Artes Dulcina de Moraes, no Conic. Sentado em frente à pequena livraria — cujo letreiro indica compra, troca e venda de livros novos, velhos, raros, esgotados, LPs e fitas de vídeo — Ivan lembra uma feliz caricatura e, os mais criativos podem imaginar que a figura de boina, barba comprida, óculos e camisa florida tenha saído de alguns daqueles livros ali expostos.

Enquanto é entrevistado, cumprimenta amigos que transitam pelas galerias do centro comercial. Um deles é o arquiteto e professor da Universidade de Brasília Jaime Almeida, que se mostra preocupado com as notícias que leu sobre a possibilidade de o Quiosque Cultural acabar, sair daquele tradicional espaço. É quando Ivan explica ao amigo: “Disseram -me que iam fazer uma limpeza, para depois arrumar um lugar melhor para mim. Estou esperando o Rodrigo Rollemberg (governador eleito) definir quem será o secretário de Cultura, para decidir o que será feito. Livro precisa de espaço. Aqui tem muitas obras que só encontramos em sebo.”

Encanto
A paixão pelos livros começou aos 8 anos de idade, no Rio de Janeiro, onde nasceu. Quando cursava o ensino primário, fez uma visita à biblioteca da Universidade Rural do Rio de Janeiro e se encantou com a quantidade de livros expostos nas estantes. “Era uma catedral de livros, tudo guardadinho, prédio enorme, e aquilo ficou na minha cabeça. Para que serviria aquilo. Eu não tinha nenhuma ideia, nunca tive um livro”, lembra.

Desde então, tomou gosto pela leitura e perdeu, aos poucos, a ingenuidade ao ler os textos complexos e irônicos de Machado de Assis. Ao mergulhar no mundo do Bruxo do Cosme Velho, criou consciência social, característica que o acompanha até hoje. “Foi quando comecei a ver o mundo e o Rio de outra forma e a compreender o motivo daquele miserê todo.” Não demorou muito para que militasse pelo movimento estudantil, reivindicando melhorias na escora onde estudava em São Gonçalo.

Aos 18 anos veio para Brasília com a missão de administrar uma livraria no Hotel Nacional. “Era tudo novo, nunca tinha ido tão longe assim”, recorda Ivan, que logo conheceu pessoas ligadas à cena cultural, política e social da cidade. “Foi o livro que me trouxe para Brasília. Cheguei aqui em 1º de janeiro de 1967 e estou até hoje.”

Fonte: Correio Braziliense – 09/12/2014 08:03

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